sexta-feira, maio 18, 2007

Cheguei!, por Vasco Granadeiro

Há dias que se acorda com saudade. Mas isso não é bom, principalmente quando a manhã é de corrida para o trabalho. A saudade deixa-nos sensíveis, fragilizados, e neste mundo de “cão que come cão” o saudosismo pode bem pôr-nos a jeito… E a ser um deles – digo eu – antes ser o primeiro que o segundo. Melhor ainda se o segundo não for um cão mas sim uma… espetada de lulas com gambas, mas isso não tem que ver com o assunto. O melhor mesmo é ter saudades antes de ir dormir. Uma pessoa está ali a lavar os dentes, a sentir uma belas saudades (se for do sexo feminino faz um bocado de força para não chorar), vai para a cama, sonha com o Belenenses a levantar a taça e acorda rijo que nem pão de três dias. Foi o que eu fiz.

Parece que foi ontem que desembarquei em Florianópolis… O Caliço tinha três dias de avanço sobre mim, as suas indicações precisas sobre o nosso ponto de encontro eram nada mais do que depositar a minha vida nas mãos de um taxista brasileiro. O “posto da Texaco no Centrinho da Lagoa” até soava divertido, bem legal mesmo, onde um cara podia dançar um sambinha e beber um shopp com a galera, o pior era lá chegar. Só que a senhora simpática que sempre se senta ao nosso lado quando voamos sozinhos – e que fala pelos cotovelos – sabia muito da ilha e tinha um carro no aeroporto. À oferta de carona eu, maturamente, respondi que sim. Também, entre ela e o taxista…Estava um calor de ananases a meio de Fevereiro, os carros eram diferentes, era de noite, as pessoas eram diferentes – as caras e o olhar –, era aquele primeiro baque de sensação de afastamento de tudo o que se conhece e já se viu… (uma coisa é ir passar uns dias, outra é passar uns meses!) Soube-me mesmo bem. Eu já estava em pulgas para chegar ainda não tinha saído de Portugal, a ideia de passar ali o semestre, no desconhecido, provocou-me um daqueles arrepios na espinha que resulta num sorriso aberto e num optimismo avassalador. Naquele momento não trocaria estar naquele sítio por nada no mundo. Mas as boas vibrações não duraram muito: a mulher disse-me que afinal só me podia deixar não sei onde e que dali teria que seguir de táxi. Estragou-me a fantasia de chegar de motorista e com uma bela história para contar aos netos. “Sovina, vê lá se te custava muito, obrigadinho por nada!”, pensei. Também nunca fui muito de optimismos.

Como se a língua estrangeira fosse o grande obstáculo entre mim e o táxi que queria apanhar, a mulher chamou para mim um que ali passava. E caprichou! Um Fiat Uno, todo podre. Sabe-se lá porquê, associo sempre o táxi àquele Mercedes de praça (essa barcaça!), com trinta anos e três voltas completas ao conta-quilómetros, mas com aquela classe. Só que o táxi que me ia levar ao paraíso – com duas malas e um portátil – era um Fiat Uno, todo podre. E o condutor: um anão, de voz nasalada. Simpaticamente ofereceu-se para me ajudar com as malas. Qualquer uma era maior que ele, declinei afirmando-me forte e saudável. Lembrei-me das formigas, que levantam um peso maior do que o próprio.

Ele não era aquele anão normal, tinha a cabeça pequena e praticamente não tinha pescoço, os membros eram proporcionais ao tamanho do corpo. Era como um homem pequeno, do tamanho de uma criança de cinco anos, sem pescoço. Era uma figura engraçada, afável e bem disposto, a voz nasalada com o português de lá ficava-lhe a matar. Tratava-me como um turista (como é que ele percebeu?), perguntava-me por Portugal (era um anão muito sábio) e elogiava o Brasil de forma um pouco exagerada. O pequeno carro era bem veloz e o pequeno condutor gostava de conduzir com a perna direita bem esticada. Quem olhava de fora via um carrinho a voar baixo e a conduzir-se sozinho. Isto preocupou-me. À frente dele o volante do Fiat Uno, todo podre, parecia a roda gigante da feira popular, era entre o aro e acima dos manómetros que se situava o seu campo de visão. Mas quanto acima? Por outro lado estávamos seguros quanto a um eventual ataque aéreo: o banco bem chegado à frente e a sua baixa estatura proporcionavam-lhe uma soberba perspectiva do céu estrelado.

Avançávamos por entre prédios e colinas com nomes esquisitos, mesmo descontado a pronunciação nasalada. Perguntei-lhe pela Lagoa da Conceição, elogiou desmesuradamente o sítio. Com tudo o que ele tinha elogiado do Brasil, onde é que já ia a credibilidade dele... Mas a culpa não era dele, eu é que perguntei. Já estava a ver as gatas com uns pêlos a mais, a praia com uns ratos a mais e a noite com uns veados a mais...

“Cheguei!”, gritei quando vi o Caliço. “Quanto é que pagaste de táxi?”, “Trinta reais…”, “Foste roubado.”. Pequeno esperto, grande estúpido.

Vá lá que não mentiu quanto à Lagoa da Conceição…