terça-feira, setembro 20, 2005

A Gorda, por Vasco Granadeiro

A minha motivação para a escrita pode apresentar-se de várias formas. Enquanto no Brasil era principalmente a vontade de espalhar pelos infortunados as castiçadas do Vereador, agora cá revivo sorridente cada uma que ficou por contar lá de longe. Claro que também conta – e muito – saber que existem pessoas que realmente lêem as parvoíces relatadas neste blog, é um lisonjeio tremendo!
No outro dia surgiu-me a motivação em forma de irmã do Caliço. Caída do céu, dirigindo-se a mim apenas por me reconhecer de uma fotografia, a Joana era um farol num mar de gente, iluminando o mais perdido dos marinheiros.
Também de outra mulher próxima de João Caliço, Felipa Rito – (única) namorada,
aka (as known as) Gorda, para ele – saiu a minha última motivação. Um truque antigo, recorrente de psicologia barata: um queixume sem fim – “desilusão” foi a palavra-chave –, por não ter o seu nome referido uma única vez neste blog, acoplado de um galanteio elogioso de cor vermelha embaraçante.
Eu finjo que caio e cedo, mas na verdade ela já merecia uma referência. Provavelmente não era bem esta a referência que ela desejava…
Ver meninas bonitas no Latitude não era assim tão frequente, talvez por isso tenha sido tão apreciado pelas semi-deusas que nos visitaram. Lá eram elas o sucesso da festa, o acordeão do Quim Barreiros, o Mantorras do Benfica.
Mas naquela noite tinham concorrência à altura: Joyce (arrepio-me só de mencionar seu nome). Linda, delicada, dançante, bêbada, Joyce deliciava a assistência com passos descarados e olhares sedutores. Alguns, os poucos bafejados pela sorte, foram também bafejados por ela em conversas inaudíveis e inusitadas, beijos soltos na face ou em direcção aos lábios mas a morrerem na praia. Ou seja, o que qualquer crânio com barba interpreta como o convite para a mais inesquecível das noites.
Em pouco tempo tinha ela já uns três ou quatro cachorrinhos em sentido, prontos a marchar, ou mesmo galopar, se ela o quisesse. Sedentos, cegos, loucos, ali não havia amigos (“Tudo vale no Amor e na (Lati)Guerra”). Mas o empate a zeros mantinha-se, teimosamente. No fundo, todos queriam uma talhadinha mas nenhum tinha faca. Será que haveria sequer uma faca? Ou o produto exposto naquele estabelecimento não seria para consumo?
Um reflexo da iluminação barata do sítio arrumou com a disputa. Num canto, escondida mas atenta, estava a Felipa, armada. E não era com uma faquinha de descascar fruta: era o maior cutelo que já vi, daqueles do talho, que parte uma vaca em dois. Ao vê-lo, Joyce correu para ela: “Você é linda!”.
Dá deus nozes a quem não tem dentes…

quarta-feira, setembro 14, 2005

Confuso, por Vasco Granadeiro

Sol ou Lua, dia ou noite
Manhã chuvosa ou céu azul
Não sei se vá para Norte ou Sul
Não sei se vá ou se pernoite.

Uma ou outra, ou nenhuma
Carne ou peixe, água ou sumo
Vejo-me numa nuvem de fumo
Num novelo de pura bruma.

No mar salgado ou na montanha
O cansaço tolda-me a razão
O tempo desnudará a solução
Aguardo, por mais tarde que venha.

Abrir os olhos mas sem ver
Ou abri-los e poder olhar:
Onde reinar, quem reinar!
Onde poder adormecer!