quarta-feira, agosto 31, 2005

Câmara de Água, por Vasco Granadeiro

É com outro espírito que agora escrevo. O semestre acabou, e com ele o reinado em Floripa e a expansão do reino por terras da américa latina. Agora escrevo da minha pátria, feliz com o que cá reencontrei, mas só de observar o simples título deste blog faz-me recordar tudo o que se passou, do primeiro ao último dia além Atlântico, e por isso choro por dentro. No entanto não ainda não escrevo a anunciar a morte deste blog: enquanto houver histórias que não foram narradas este blog viverá!
Nesse fim de noite o shotgun foi bradado pelo Câmara, azar o dele. Estava especialmente frenético e nem o ritmo avassalador do El Divino chegou para lhe diminuir as rotações. Eu guiava, sereno, mas ao meu lado estava um cãozinho a pilhas, armado com um resto de bebida daquelas com cheiro a pastilha elástica. Escusado será dizer que esse delicado bouquet se tornou a minha fragrância para o resto da viagem, já que equilibrar o copo nos solavancos parecia demais para o nosso coelhinho da Duracel. Todavia ganhar aquele lugar da frente não era bem uma vitória, a não ser que se apreciasse partilhá-lo com outro rapazinho, bem juntinhos – era essa a disposição regulamentar de um Fusca sobrelotado: dois no lugar-do-morto e três atrás. Teve apenas esse atenuante, já que partilhar o lugar da frente com o Caliço não melhorou em nada a sua destreza, muito pelo contrário. Mais: alguns salpicos na minha camisa levaram mesmo o selo do canhoto.
E até casa foi um inferno. Ou era a condução, ou eram os buracos, ou eram as curvas ou era o Caliço: o Câmara não se calava fazendo as delícias da plateia traseira, que ia ajudando à festa. Eu suspirava e conservava a postura, ria-me a espaços, já com o braço das mudanças em ponto caramelo.
O lugar da frente era um lugar de responsabilidade: o seu ocupante tinha sempre que manter a janela aberta e o braço de fora – para “dar estilo” – e sempre abrir o portão de casa com o comando que estava no porta-luvas, sem qualquer chamada de atenção por parte do condutor.
O Câmara tentava pela milionésima vez abri-lo mas em vão (o Xico era o único que o abria à primeira e através do vidro). “Deixa-me que eu consigo, vá lá!”, repetiu até ao fim da minha paciência. Quando o Câmara devolveu o comando ao porta-luvas eu vi-o como um sinal de desistência, e ao ir lá retirá-lo de novo ele estatela os meus dedos com um fechar repentino deste, ajudado pela mola. Afinal tinha conseguido e o portão abria, o que lhe deu um pouco de razão. Mas com os dedos a doer e já consumido por toda a algazarra gerada por ele, eu disse, em jeito de desabafo: “Bem feito era meter o nosso amigo Câmara na piscina”.
Já com o carro estacionado e a dirigir-me para a porta de casa ouço os gritos do Caliço e do Xico a pedirem-me ajuda. Estavam os dois agarrados ao Câmara à beira da piscina, riam-se e esgatanhavam-se, cegos no objectivo de dar banho a este, calçado com sapatos de vela e a mais impecável das camisas. Eu até sou boa pessoa e não costumo alinhar nessas brincadeiras cruéis, mas quando dei por mim estava a dar aquele empurrãozinho que faltava, e as águas paradas da piscina preparavam-se para receber corpo contrariado do nosso amigo, que para lá voava.
A seguir risota, claro, e o culpado: eu. Ainda temi que o Câmara tivesse um resto de bateria para se vingar mas não. Calmo e molhado, com um sorriso um pouco amarelo mas sem fúria no olhar, recolheu-se aos seus aposentos, sem praguejar sequer. Confesso que depois me senti culpado e que a minha consciência ainda lhe levou uma maçã descascada à cama. E tudo morreu ali.
Mesmo assim, desde então, enquanto ele lá esteve, passei a controlá-lo no momento de passar pela piscina. Ele ria, ameaçador.

1 Comments:

At 05 setembro, 2005 17:40, Anonymous Anónimo said...

adoro as tuas historias...tao reais:P Tenho pena de nao ter passado mais tempo com vcs..beijinhos grandes

 

Enviar um comentário

<< Home