sábado, julho 23, 2005

P'a Nasca, por Vasco Granadeiro

Ainda me lembro do riso da recepcionista quando lhe disse que ia viajar na America del Sur. "Cruz del Sur?", "Nao, America del Sur...". O jantar antes da viagem foi a mais estranha refeicao dos últimos tempos: o meu pedido de desconto de 50 centimos de Sol, concedido, resultou numa refeicao totalmente escolhida pelo cozinheiro, sem que eu pudesse sequer reagir. Depois de uma entrada de Cussa e de um Arroz de Chauffa, tudo isto regado por um sumo de laranja miccionado pelo diabo em pessoa, voltámos ao hotel (hotel...) para a despedida. Só o Calhau me separava da solidao que agora (por enquanto) enfrento, e o taxi dele já o esperava.
Minutos depois entrei eu no meu, a caminho do amistoso bairro La Victoria, a fina-flor de Lima, onde andar a pé é andar nu. Largou-me rigorosamente á porta - neste caso porta é só uma forca de expressao - e eu contemplei a agencia que os meus 25 Soles tinham contratado.
Paguei para usar a pior latrina daquele bairro reles - infeliz ironia - , já que o autocarro em que seguia nao dispunha de uma. Até me parece se me aliviasse sobre qualquer superfície pública seria benéfico para a sua limpeza - um comeco, digamos - mas enfim. Como habitual, de mochila em punho, procurei quem carregava as malas na cave e, surpresa a minha, quando me disseram para a levar para a cabine. Nao havia de ser eu a excepcao, limpei as gotas de suor frio e esperei o pior.
Efectivamente la em cima era o caos. As filas de cadeiras nao podiam ser mais próximas - para fazer render o peixe -, por pouco que nao havia dois lugares por cadeiras. E claro, o inevitável cheirinho a cacau inundava aquele espaco fechado - mas nem Suchard nem Nesquick, um daqueles do Mini-Preco, bem rancoso, que se serve á pazada - onde os gritos das vítimas de esmagamento se confundiam com as explicacoes de um tipo de bigode a uma ancia, também de bigode, na última fila, surda que nem um calhau, que teimava em nao ouvir que o lugar 3 era lá á frente. Eu sempre disse que só queria conhecer um tipo que fosse p'a Nasca, e lá estava, uma camioneta cheia. Tudo p'a Nasca mas continuei a sentir-me sozinho: ninguem usava mochila ou falava uma língua que nao fosse quechua ou aimara. Aquilo nao era um autocarro, era um tipi - so índios iam p'a Nasca.
Felizmente que mesmo por cima do meu lugar havia espaco para a minha mochila, longe dos enchidos e das marmitas com escabeche de frango. Perante o meu esforco para enfiar a minha mochila num espaco de todo inadequado, ouco uma voz, suspirando com desdém: "Las mochilas...". É preciso ter lata! No meio de um bando de nómadas, que até renda pagam da casa que trazem ás costas, foi escolher-me a mim para refilar! Pode ser que uma questao de moda, mas nao tenho a culpa que a minha Winner 55 nao esteja á altura dos populares sacos de estopa de tamanho familiar. E que, por acaso, a voz até tinha! E logo dois!
Finalmente lá consegui enfiar a mochila na prateleira superior e visualizei o meu lugar: na minha poltrona á janela sentava-se distraidamente um jovem, deixando a do corredor para mim. Nao era índio, até era bem branquinho, pitosga e com cabelinho a zorro, camisola Adidas vermelha, bem larga, bebia de esguelha por uma garrafa de Pepsi a ouvir o que acreditei ser o melhor som, tudo isto com uma pausa que fazia parar o tempo. Eu, ciente de que jogava fora de casa, abri bem os olhos, humilde, com o meu sorriso condescendente numero 3, e perguntei-lhe, balbuciando no meu castelhano de Badajoz do lado portugues, se o lugar do corredor era o dele, para depois lhe dizer que nao me importava com a troca. Cabrao do puto respondeu logo que o lugar da janela era o dele, mesmo depois de ver o meu bilhete! Argumentava que o número dele era o da janela, enquanto eu olhava a placa que me dava razao. Expliquei-lhe tudo mas cedi, apesar de nao me apetecer. "Já nao falo mais contigo", pensei.
Mais uma vez vi o príncipio da "Guerra dos Mundos" em grego dobrado em castelhano (em Portugal ainda está no cinema. E dizem que o Peru é atrasado...) e, entre adormecer e acordar com dores no pescoco, cheguei a Nasca.

2 Comments:

At 26 julho, 2005 18:23, Anonymous Anónimo said...

Pela primeira vez acompanho à distância as histórias, já míticas, do blog.. Q sensaçao estranha!Espero q estejas a curtir à grande!Já agora, as declarações da UFSC já foram p Portugal! Porta-te bem!Gde abraço

 
At 27 julho, 2005 09:45, Anonymous Anónimo said...

Aqui fica um beijinho cheio de saudades...Madalena

 

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