P'a Nasca, por Vasco Granadeiro
Ainda me lembro do riso da recepcionista quando lhe disse que ia viajar na America del Sur. "Cruz del Sur?", "Nao, America del Sur...". O jantar antes da viagem foi a mais estranha refeicao dos últimos tempos: o meu pedido de desconto de 50 centimos de Sol, concedido, resultou numa refeicao totalmente escolhida pelo cozinheiro, sem que eu pudesse sequer reagir. Depois de uma entrada de Cussa e de um Arroz de Chauffa, tudo isto regado por um sumo de laranja miccionado pelo diabo em pessoa, voltámos ao hotel (hotel...) para a despedida. Só o Calhau me separava da solidao que agora (por enquanto) enfrento, e o taxi dele já o esperava.
Minutos depois entrei eu no meu, a caminho do amistoso bairro La Victoria, a fina-flor de Lima, onde andar a pé é andar nu. Largou-me rigorosamente á porta - neste caso porta é só uma forca de expressao - e eu contemplei a agencia que os meus 25 Soles tinham contratado.
Paguei para usar a pior latrina daquele bairro reles - infeliz ironia - , já que o autocarro em que seguia nao dispunha de uma. Até me parece se me aliviasse sobre qualquer superfície pública seria benéfico para a sua limpeza - um comeco, digamos - mas enfim. Como habitual, de mochila em punho, procurei quem carregava as malas na cave e, surpresa a minha, quando me disseram para a levar para a cabine. Nao havia de ser eu a excepcao, limpei as gotas de suor frio e esperei o pior.
Efectivamente la em cima era o caos. As filas de cadeiras nao podiam ser mais próximas - para fazer render o peixe -, por pouco que nao havia dois lugares por cadeiras. E claro, o inevitável cheirinho a cacau inundava aquele espaco fechado - mas nem Suchard nem Nesquick, um daqueles do Mini-Preco, bem rancoso, que se serve á pazada - onde os gritos das vítimas de esmagamento se confundiam com as explicacoes de um tipo de bigode a uma ancia, também de bigode, na última fila, surda que nem um calhau, que teimava em nao ouvir que o lugar 3 era lá á frente. Eu sempre disse que só queria conhecer um tipo que fosse p'a Nasca, e lá estava, uma camioneta cheia. Tudo p'a Nasca mas continuei a sentir-me sozinho: ninguem usava mochila ou falava uma língua que nao fosse quechua ou aimara. Aquilo nao era um autocarro, era um tipi - so índios iam p'a Nasca.
Felizmente que mesmo por cima do meu lugar havia espaco para a minha mochila, longe dos enchidos e das marmitas com escabeche de frango. Perante o meu esforco para enfiar a minha mochila num espaco de todo inadequado, ouco uma voz, suspirando com desdém: "Las mochilas...". É preciso ter lata! No meio de um bando de nómadas, que até renda pagam da casa que trazem ás costas, foi escolher-me a mim para refilar! Pode ser que uma questao de moda, mas nao tenho a culpa que a minha Winner 55 nao esteja á altura dos populares sacos de estopa de tamanho familiar. E que, por acaso, a voz até tinha! E logo dois!
Finalmente lá consegui enfiar a mochila na prateleira superior e visualizei o meu lugar: na minha poltrona á janela sentava-se distraidamente um jovem, deixando a do corredor para mim. Nao era índio, até era bem branquinho, pitosga e com cabelinho a zorro, camisola Adidas vermelha, bem larga, bebia de esguelha por uma garrafa de Pepsi a ouvir o que acreditei ser o melhor som, tudo isto com uma pausa que fazia parar o tempo. Eu, ciente de que jogava fora de casa, abri bem os olhos, humilde, com o meu sorriso condescendente numero 3, e perguntei-lhe, balbuciando no meu castelhano de Badajoz do lado portugues, se o lugar do corredor era o dele, para depois lhe dizer que nao me importava com a troca. Cabrao do puto respondeu logo que o lugar da janela era o dele, mesmo depois de ver o meu bilhete! Argumentava que o número dele era o da janela, enquanto eu olhava a placa que me dava razao. Expliquei-lhe tudo mas cedi, apesar de nao me apetecer. "Já nao falo mais contigo", pensei.
Mais uma vez vi o príncipio da "Guerra dos Mundos" em grego dobrado em castelhano (em Portugal ainda está no cinema. E dizem que o Peru é atrasado...) e, entre adormecer e acordar com dores no pescoco, cheguei a Nasca.

2 Comments:
Pela primeira vez acompanho à distância as histórias, já míticas, do blog.. Q sensaçao estranha!Espero q estejas a curtir à grande!Já agora, as declarações da UFSC já foram p Portugal! Porta-te bem!Gde abraço
Aqui fica um beijinho cheio de saudades...Madalena
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