terça-feira, julho 26, 2005

Inverno de Esperanca, por Vasco Granadeiro

Nunca o Inverno foi täo frio
Täo escuro, täo sombrio.
Tempo eterno de penumbra
Fome e sofrimento
E o fim näo se vislumbra.

A última Primavera, anos atrás
Só vive no meu pensamento.
Porque para ela jaz
Morta, enterrada
Perdida no esquecimento.

Por vezes aparece o Sol
E um raio de calor
Ilumina uma esperanca.
Ilusäo, uma macä envenenada
E logo uma nuvem o engole.

Viajo de cidade em cidade
Aguardo um claro alvor
(Porque quem espera alcanca)
E enquanto passa a tempestade
Eu sonho com a bonanca.

sábado, julho 23, 2005

P'a Nasca, por Vasco Granadeiro

Ainda me lembro do riso da recepcionista quando lhe disse que ia viajar na America del Sur. "Cruz del Sur?", "Nao, America del Sur...". O jantar antes da viagem foi a mais estranha refeicao dos últimos tempos: o meu pedido de desconto de 50 centimos de Sol, concedido, resultou numa refeicao totalmente escolhida pelo cozinheiro, sem que eu pudesse sequer reagir. Depois de uma entrada de Cussa e de um Arroz de Chauffa, tudo isto regado por um sumo de laranja miccionado pelo diabo em pessoa, voltámos ao hotel (hotel...) para a despedida. Só o Calhau me separava da solidao que agora (por enquanto) enfrento, e o taxi dele já o esperava.
Minutos depois entrei eu no meu, a caminho do amistoso bairro La Victoria, a fina-flor de Lima, onde andar a pé é andar nu. Largou-me rigorosamente á porta - neste caso porta é só uma forca de expressao - e eu contemplei a agencia que os meus 25 Soles tinham contratado.
Paguei para usar a pior latrina daquele bairro reles - infeliz ironia - , já que o autocarro em que seguia nao dispunha de uma. Até me parece se me aliviasse sobre qualquer superfície pública seria benéfico para a sua limpeza - um comeco, digamos - mas enfim. Como habitual, de mochila em punho, procurei quem carregava as malas na cave e, surpresa a minha, quando me disseram para a levar para a cabine. Nao havia de ser eu a excepcao, limpei as gotas de suor frio e esperei o pior.
Efectivamente la em cima era o caos. As filas de cadeiras nao podiam ser mais próximas - para fazer render o peixe -, por pouco que nao havia dois lugares por cadeiras. E claro, o inevitável cheirinho a cacau inundava aquele espaco fechado - mas nem Suchard nem Nesquick, um daqueles do Mini-Preco, bem rancoso, que se serve á pazada - onde os gritos das vítimas de esmagamento se confundiam com as explicacoes de um tipo de bigode a uma ancia, também de bigode, na última fila, surda que nem um calhau, que teimava em nao ouvir que o lugar 3 era lá á frente. Eu sempre disse que só queria conhecer um tipo que fosse p'a Nasca, e lá estava, uma camioneta cheia. Tudo p'a Nasca mas continuei a sentir-me sozinho: ninguem usava mochila ou falava uma língua que nao fosse quechua ou aimara. Aquilo nao era um autocarro, era um tipi - so índios iam p'a Nasca.
Felizmente que mesmo por cima do meu lugar havia espaco para a minha mochila, longe dos enchidos e das marmitas com escabeche de frango. Perante o meu esforco para enfiar a minha mochila num espaco de todo inadequado, ouco uma voz, suspirando com desdém: "Las mochilas...". É preciso ter lata! No meio de um bando de nómadas, que até renda pagam da casa que trazem ás costas, foi escolher-me a mim para refilar! Pode ser que uma questao de moda, mas nao tenho a culpa que a minha Winner 55 nao esteja á altura dos populares sacos de estopa de tamanho familiar. E que, por acaso, a voz até tinha! E logo dois!
Finalmente lá consegui enfiar a mochila na prateleira superior e visualizei o meu lugar: na minha poltrona á janela sentava-se distraidamente um jovem, deixando a do corredor para mim. Nao era índio, até era bem branquinho, pitosga e com cabelinho a zorro, camisola Adidas vermelha, bem larga, bebia de esguelha por uma garrafa de Pepsi a ouvir o que acreditei ser o melhor som, tudo isto com uma pausa que fazia parar o tempo. Eu, ciente de que jogava fora de casa, abri bem os olhos, humilde, com o meu sorriso condescendente numero 3, e perguntei-lhe, balbuciando no meu castelhano de Badajoz do lado portugues, se o lugar do corredor era o dele, para depois lhe dizer que nao me importava com a troca. Cabrao do puto respondeu logo que o lugar da janela era o dele, mesmo depois de ver o meu bilhete! Argumentava que o número dele era o da janela, enquanto eu olhava a placa que me dava razao. Expliquei-lhe tudo mas cedi, apesar de nao me apetecer. "Já nao falo mais contigo", pensei.
Mais uma vez vi o príncipio da "Guerra dos Mundos" em grego dobrado em castelhano (em Portugal ainda está no cinema. E dizem que o Peru é atrasado...) e, entre adormecer e acordar com dores no pescoco, cheguei a Nasca.

segunda-feira, julho 11, 2005

Rapidinha, por Vasco Granadeiro

O meu ultimo texto ficou incompleto. Mais havia a dizer sobre Buenos Aires mas fechou o webcafe onde me encontrava e mais oportunidades de prosar nao tive. Mas concluo-o apenas dizendo que e uma cidade linda, dinamica, apaixonante! (e eu na merda da ilha...)
Tambem agora nao tenho tempo, esta se a acabar a hora da net mais lenta que ja surfei.
Depois ja estivemos em Mendoza, tambem na Argentina, saltamos para Santigo do Chile e subimos para norte para Calama e finalmente para S. Pedro de Atacama, ainda no Chile, onde nos encontramos. Destaco a espantosa amplitude termica daqui, uns vinte graus! De noite faz um frio de rachar; de dia um calor abrasador. Mas vale a pena!
Amanha vamos para Bolivia e voltamos na sexta-feira.
(Expulso de novo)

quarta-feira, julho 06, 2005

Era o Teu Sorriso, por Vasco Granadeiro

Era o teu sorriso
Na face daquela argentina
O teu sorriso de menina
Inocente e puro, tao querido.
Apesar de contido, vi-o
Era o teu sorriso
Que discretamente ria
Da parvoíce que eu pedia
Áquele retroseiro esguio
De olhar duro e ferido.
Foi com o teu sorriso
Que ela disfarcou gargalhadas
Ao ver as minhas calcas rasgadas
E a solucao de improviso.
Era o teu sorriso
Em Buenos Aires, perdido
Mas que eu achei naquele canto.
Durou só um instante
Mas chegou para me recordar
Que é de ti que gosto tanto
E que o que me faz acordar
É o teu sorriso!
E é tudo o que eu preciso.

terça-feira, julho 05, 2005

Amo-te América do Sul - Buenos Aires, por Vasco Granadeiro

Comecou a segunda fase desta odisseia. Depois de arrasar com uma pequena ilha no Sudeste brasileiro chegou a altura de esventrar a América Latina, que ela bem merece. Tal como o Benfica, também a equipa deste blog apresenta poucos reforcos. Neste caso é só um mas de inquestionável valor: Tiago Calhau. É um jovem promissor, fluente na língua de Luís Figo (castelhano, note-se), com duas boas maos na alimentacao, bom jogo de vinho.
Despedida na Confraria, abraco choroso ao Vereador, engolidos por uma camioneta e assim comecou...
Trinta horas depois somos cuspidos em Buenos Aires: quatro backpackers, totalmente camuflados nesta fauna citadina. A nossa casa toma o nome de Hotel "El Cabildo", muito melhor do que o dos meus "sonhos" na camioneta. Aliás, outro aspecto superou largamente o expectado: além da espelunca imaginada, a fome negra também nao passou de um equívoco. A viagem adivinhava finalmente algum decréscimo de acumulacao de gorduras em torno da cintura pélvica, mas esta cidade é um pecado gastronómico: um buffet livre e uma garrafa de bom vinho tinto custa menos de 10 Eur! Até esta noite, em que optámos por uma alimentacao mais frugal e cuidada - MacDonald's - só tínhamos limpo a boca a guardanapos de pano... Destaco o fantástico Grant's, onde baixo preco contrasta com a qualidade e quantidade dos produtos. O que lá ingeri nem às paredes confesso, temendo agredir alguma mente mais susceptível. De momento, para além dos outros alarves que comigo batalharam pelo primeiro lugar, apenas recordo um ou dois indivíduos capazes de semelhante facanha.