segunda-feira, junho 20, 2005

Confissão de um Rapaz, por Vasco Granadeiro

Já reparaste que só ao pé de ti gaguejo?
Que te quero abraçar quando te vejo?
Mas não posso, não sou capaz
Queria ser homem mas ainda sou rapaz.
E se te olho nos olhos sou um cobarde
Não aguento, desvio o olhar
Tenho medo de me afundar
Então desligo e tento mais tarde.
Mas mais tarde tu não estás em casa
Se quero deixar algum recado?
Não, obrigado.
E fico calado com o coração em brasa.

Aos outros nunca penso no que dizer
Quase tudo me sai direito
A ti, por tanto à indiferença temer
Saem artigos com defeito.
E para te impressionar minto
Sou quem não sou, uma fantasia
Não te mostro o que sinto
E falho por tentar em demasia.
Ou se faço por ser igual a mim
Exagero, eu não sou assim!
Fico parvo, turvo, desinteressante
E no caminho para ti continuo errante.

Não me consigo exprimir contigo
Ser atrevido, charmoso e arrojado
Escondo-me atrás do disfarce de amigo
E a teu lado disfarço um coração acelerado.
Se soubesses a felicidade que te prometo
Serias a Pinóquia e eu o Geppeto
Mas tu não sabes, nem suspeitas
E não pensas em mim quando te deitas.
É a crueldade da esperança sem resposta
Que move um rapaz que de ti gosta
A fazer por te querer merecer e ter
E é o desgosto que o faz escrever.

quinta-feira, junho 02, 2005

Mergulho Nocturno, por Vasco Granadeiro

Alguém buzinava ao portão, devia ser uma da manhã. Era o Cordeiro que, vindo de uma viagem a aproveitar o fim-de-semana prolongado, aparecia naquele serão apenas para dar os atrasados parabéns ao Caliço. Cordialmente, como de costume nesta casa, eu e o Caliço recebemo-lo no salão. Sentou-se, acendeu um cigarro e uma conversa, animada pela descrição da viagem.
Os ruídos à volta desta casa já não nos são estranhos: ou é um solitário carro que passa, ou são pescadores na lagoa, ou mesmo o ser que vive entre o tecto e as telhas, que tanto pode ser um gato como um gambozino. Mesmo àquela hora, o ruído que se aproximava não obteve qualquer reflexo da nossa parte, tal é o hábito. Mas o crescendo de intensidade, que instantaneamente se fez notar, despertou-nos a atenção. No mesmo instante em que nos olhámos, confusos, a vista da sala sobre a lagoa era invadida por um carro que para ela capotava. O barulho de metal a dobrar e os feixes difusos dos faróis, apenas a uns dez metros da janela, compuseram o cenário que nos deixou boquiabertos. Do mal, o menos: caiu de pé. “Ó Xico, ó Xico!” – o Caliço chamava o único que não tinha presenciado o espectáculo, com uma excitação tal que parecia que o Benfica tinha ganho a taça.
De dentro do carro, uma pick-up Ford Ranger, sai um cambaleante sortudo, ileso. Por entre as grades do jardim perguntamos-lhe se está bem, responde que sim e que ia ligar para o seguro. De seguida, nós e a curiosidade, que entretanto chegou, corremos porta fora. O Caliço, destemido fotógrafo, empunhava a sua máquina, farejando algum negócio com a TVI local.
O condutor tinha sumido. Viam-se agora os rastos dos pneus que deixavam adivinhar o acidente: na recta antes da nossa porta, duas faixas pretas, oblíquas ao eixo desta, apontavam o alvo e desapareciam na berma verdejante. Um carro e uma mota, também amigos da curiosidade, paravam e iludidamente perguntavam se estávamos bem.
Algum tempo depois, já o Cordeiro há muito tinha abalado e nós em casa à espera do reboque, uma qualquer disfunção eléctrica causada pela água faz disparar a buzina do carro, incessante. Berrou até queimar, meia hora depois.
Por fim lá chegou o reboque que tirou o carro da água. Mais um emocionante entretenimento: um cabo e puxar até sair. Só mais umas fotos do interior do veículo e demos por encerrada a noite.