quarta-feira, maio 04, 2005

Pegar Carona, por Vasco Granadeiro

Raro costume em Portugal, este de pedir boleia. Culturalmente existe a desconfiança no indivíduo desconhecido, injectada logo nos primeiros anos de vida – não falar a estranhos, nunca aceitar boleia de estranhos – que bloqueia tão belo confronto social. Nem condutor nem transeunte sequer pondera este nobre parasitismo, simbiose no caso de uma boa companhia. Então quando os intervenientes são de sexos opostos, uma boleia é encarada como situação de alto risco: o homem é na maioria das vezes um violador, um psicopata ou um assassino “a monte”.
Aqui a boleia é um conceito banalíssimo, todo mundo pega carona. Cá em casa, até as meninas que recentemente nos visitaram andaram à boleia. Encontraram um guia apaixonado que só interrompeu a visita turística pela ilha quando a última delas confessou ter namorado. Na única que apanhei, a caminho da universidade, num dia em que o Fusca estava doente, o simpático condutor, columbófilo nas horas vagas (será perigoso?), explicou-me ser a fraca rede de transportes públicos a gerar aquele costume. Perguntei-lhe se teria os dias contados. Orgulhosamente declarou que “só dá carona quem já pegou carona”. Inconclusivo, mas bonito.
Cada um tem a sua táctica, uns com mais sucesso que outros. Conta-se haver tipos a estudar na nossa universidade que todos os dias vão e vêm à boleia. Um mito urbano, na minha opinião. Alguns até exibem uma placa com o destino pretendido, evitando assim o transtorno da paragem por parte de um benevolente errante. Mas todos, sem excepção, mostram um talento natural para a coisa. Pegar uma carona não tem só a ver com sorte, é preciso querer a carona. É todo um ritual centrado num objectivo, uma verdadeira dança da chuva. No macho a posição é erecta e decidida, o polegar aponta a direcção desejada (apenas os leigos apontam o céu), o braço, em “v” com a mão à altura do ombro, não invade a estrada por muito pouco. Admitem-se paragens entre veículos mas à passagem de um há um esbracejar frenético, com uma ligeira basculação lateral do tronco acompanhando o movimento deste. O olhar é penetrante, quase ameaçador, e não se insulta uma recusa, são ossos do ofício. Na fêmea, uma saia acima do joelho é o suficiente.
Como já todos pegámos caronas agora também as damos. Só às vezes, quando há espaço. A tendência é dar às gatinhas gostosas, sujam menos o carro. Porém já algumas recusaram, vá-se lá perceber porquê