Nostalgias: Visitados por Mãe Caliço, por Vasco Granadeiro
Realmente é um exagero considerar a visita da Dra. Manuela Caliço uma nostalgia, foi há pouco tempo. Mas é este o nome da rubrica que personifica a preguiça, ou seja, não escrever sobre o que se passou ontem é amanhã uma nostalgia.
Depois de uma rápida arrumação, o Vereador, sempre sorridente, recebeu as doutoras Manuela, mãe do João, e Libânia, amiga. Sempre julguei que o Caliço fosse o menino querido da mamã, mas não. Incrível, não lhe trouxe nada, nem sequer um paio.
À noite comunicou-nos o Caliço que estávamos convidados para jantar, alertando-nos logo de seguida que nem de longe nos devíamos sentir obrigados a ir. “Claro, só mais um churrasquinho cá em casa…”.
Muito bem nos falaram da sequência de camarão do “Barba Negra”, um restaurante na Av. das Rendeiras. Acabávamos de entrar no puro restaurante para a turistada e um simpático empregado, respeitosamente mascarado de pirata, dava-nos as boas vindas. “Desejam rum?”, e nem à frente da mãe o beberolas do Caliço recusou. Na proa da mesa sentaram-se as recém-chegadas à ilha, a meio eu e o Caliço, a tentação de nunca usar os talheres afastou os mais ratos para a popa: Adriano, Xico e Rabaçal. Uma brisa gelada, tão orgulhosamente anunciada à porta, trocava as duas doutoras. A conversa começou amena, de tão embaraçados que estávamos bebíamos suquinhos. “Não bebem Skol?”. Aos olhos das viajantes éramos uns meninos, tenrinhos.
Chegados os primeiros camarões acabou-se a timidez, valores mais altos se levantavam… E daí ao total à-vontade foi um instante. Arregaçar a manga e tirar o relógio são acções que falam por si. Ouve até quem usasse o pronome “merda” mais do que uma vez, a descontracção com que o fez foi o melhor disfarce.
A sequência de camarão é um prato difícil, socialmente falando. Resume-se a comer muito com as mãos. Os talheres estão lá, só não há paciência. Em frente a adultos respeitáveis, com as mãos a pingar alho e óleo, a tresandar a camarão, com os copos baços de impressões digitais, competindo no prato em altura, ficar bem visto torna-se uma tarefa complicada. No entanto, a experiência destapa a solução: só não se pode ser o primeiro alarve. No começo há que resistir à tentação e começar com os talheres. Olhar em volta. Se todos estiverem igualmente educados, desafiar a pessoa do lado a comer com as mãos, argumentando que assim faria mais sentido. Na altura em que cede (e alguém cede sempre), destruir a simultaneidade do acto à última da hora com um sorvo na bebida. Dar um sorriso condescendente, bem visível, e pegar no primeiro camarão. Trigo limpo.
A sequência era realmente boa, mas entre pratos dava para dormir. E o empregado ouviu exactamente isto.
Na despedida fomos novamente convidados para jantar. Bem que tentámos ir ao “Cunha” recordar um bacalhau ou ao “Chico”, rival vizinho dos piratas, mas a segunda-feira era de folga. O mesmo ladrão do mar recebia-nos a sorrir, a mesa foi a mesma, a disposição também, déja vu. Até o ar condicionado ligaram e novamente as doutoras trocaram de lugar, nem de propósito. Enfeitiçados, Caliço, Adriano e Xico pediram a sequência. Resolvidos a quebrar o enguiço, eu e Rabaçal optámos pela moqueca de garopa. A descrição do pirata alegre levou as doutoras até à caldeirada.
Mas se da outra vez demorou horas, desta vez a sequência foi um tiro. Creio ter ouvido, a tempos, o sinal sonoro do micro-ondas, cuspindo o prato seguinte. “Está melhor que da outra vez”. Tolos. Fabulosa a moqueca, não tão boa a caldeirada.
E concluída a refeição despediram-se as doutoras. Só aí deixámos de ser irmãos do Caliço.
Depois de uma rápida arrumação, o Vereador, sempre sorridente, recebeu as doutoras Manuela, mãe do João, e Libânia, amiga. Sempre julguei que o Caliço fosse o menino querido da mamã, mas não. Incrível, não lhe trouxe nada, nem sequer um paio.
À noite comunicou-nos o Caliço que estávamos convidados para jantar, alertando-nos logo de seguida que nem de longe nos devíamos sentir obrigados a ir. “Claro, só mais um churrasquinho cá em casa…”.
Muito bem nos falaram da sequência de camarão do “Barba Negra”, um restaurante na Av. das Rendeiras. Acabávamos de entrar no puro restaurante para a turistada e um simpático empregado, respeitosamente mascarado de pirata, dava-nos as boas vindas. “Desejam rum?”, e nem à frente da mãe o beberolas do Caliço recusou. Na proa da mesa sentaram-se as recém-chegadas à ilha, a meio eu e o Caliço, a tentação de nunca usar os talheres afastou os mais ratos para a popa: Adriano, Xico e Rabaçal. Uma brisa gelada, tão orgulhosamente anunciada à porta, trocava as duas doutoras. A conversa começou amena, de tão embaraçados que estávamos bebíamos suquinhos. “Não bebem Skol?”. Aos olhos das viajantes éramos uns meninos, tenrinhos.
Chegados os primeiros camarões acabou-se a timidez, valores mais altos se levantavam… E daí ao total à-vontade foi um instante. Arregaçar a manga e tirar o relógio são acções que falam por si. Ouve até quem usasse o pronome “merda” mais do que uma vez, a descontracção com que o fez foi o melhor disfarce.
A sequência de camarão é um prato difícil, socialmente falando. Resume-se a comer muito com as mãos. Os talheres estão lá, só não há paciência. Em frente a adultos respeitáveis, com as mãos a pingar alho e óleo, a tresandar a camarão, com os copos baços de impressões digitais, competindo no prato em altura, ficar bem visto torna-se uma tarefa complicada. No entanto, a experiência destapa a solução: só não se pode ser o primeiro alarve. No começo há que resistir à tentação e começar com os talheres. Olhar em volta. Se todos estiverem igualmente educados, desafiar a pessoa do lado a comer com as mãos, argumentando que assim faria mais sentido. Na altura em que cede (e alguém cede sempre), destruir a simultaneidade do acto à última da hora com um sorvo na bebida. Dar um sorriso condescendente, bem visível, e pegar no primeiro camarão. Trigo limpo.
A sequência era realmente boa, mas entre pratos dava para dormir. E o empregado ouviu exactamente isto.
Na despedida fomos novamente convidados para jantar. Bem que tentámos ir ao “Cunha” recordar um bacalhau ou ao “Chico”, rival vizinho dos piratas, mas a segunda-feira era de folga. O mesmo ladrão do mar recebia-nos a sorrir, a mesa foi a mesma, a disposição também, déja vu. Até o ar condicionado ligaram e novamente as doutoras trocaram de lugar, nem de propósito. Enfeitiçados, Caliço, Adriano e Xico pediram a sequência. Resolvidos a quebrar o enguiço, eu e Rabaçal optámos pela moqueca de garopa. A descrição do pirata alegre levou as doutoras até à caldeirada.
Mas se da outra vez demorou horas, desta vez a sequência foi um tiro. Creio ter ouvido, a tempos, o sinal sonoro do micro-ondas, cuspindo o prato seguinte. “Está melhor que da outra vez”. Tolos. Fabulosa a moqueca, não tão boa a caldeirada.
E concluída a refeição despediram-se as doutoras. Só aí deixámos de ser irmãos do Caliço.

2 Comments:
K mitras!!!!
E ainda por cima cospem na sopa!!!!
Adriano, akele abraço!!!
é uma delicia lêr palavras articuladas por Camarada vascos !
axo que se escrevesse com tanta graciosidade, criatividade e inteligencia talvez fizesse um blog sobre as historias que se multiplicam aqui em Bcn.
abraço
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