terça-feira, maio 24, 2005

Ninguém Pára os Lampes, Infelizmente, por Vasco Granadeiro

É verdade, não escrevo há uns tempos. Há que compreender, as coisas mudaram. O blog já perdeu aquele efeito de novidade, aquele esplendor, a ausência de comentários nas últimas peças é notória. Aqueles zeros desanimam! Que o diga o Caliço, que desanimou antes destes aparecerem. Também já não está calor, nem perto. Na verdade está a ficar um frio que nunca pensei sentir em Terras de Vera Cruz. Apesar de não ser totalmente estúpido e saber alguma geografia, o suficiente para perceber que isto não é o Nordeste, até agora iludia-me de esperança a tendenciosa ligação entre o nome Brasil e o calor constante. “Faz frio mas não como em Portugal!”. Pois… E o trabalho aperta! A entrega é dentro de poucas semanas e há que redigir os textos que ilustram todo o labor computorizado. Por isso saímos menos à noite, e também porque acabaram as visitas e cada um já se fartou dos outros dois. Agora só me motiva à escrita a responsabilidade que assumi na (pouca) manutenção deste blog e a rivalidade com outro destes, de nível bastante inferior, note-se. Também não esqueço os inúmeros, mas tímidos, fãs que acredito existirem. Ou será que sou otário?
É inevitável ceder ao actual tema de maior interesse nacional: Belenenses acaba a Super Liga destacado em 9º lugar. Todos falam do mesmo. Só não percebo porque é que as ruas andam cheias de ilustres personagens vestidas de vermelho, quando o Belém orgulhosamente enverga a camisola azul celeste (que linda cor, vai bem com tudo).
O Benfas é campeão! É por isso! E os lampes saíram à rua! Partem tudo, que bonito. Depois de onze anos a festejarem o troféu do Torneio do Vale do Tejo como se fossem campeões europeus, agora já podem andar à vontade, a exibirem os lindos bonés do tempo do Eusébio com a colecção de anzóis da sorte, a abrirem o dicionário para a televisão. O coitado do Marquês é mais uma vez montado, esse benfiquista de gema. Lá que montem o leão ainda se compreende…
E são muitos, enchem logo os melhores sítios! Naturalmente que aproveitam qualquer objecto a ser contornado para lhe chamarem rotunda e aí fazerem a festa. E a migração? Um verdadeiro êxodo! O subúrbio em festa ataca a capital! Quem nunca foi à Damaia ou à Cova da Moura é de aproveitar. A probabilidade de voltar nu é quase nula: a mitralhada está toda no Parque das Nações. Se alguém for à Buraca não deixe de passar pelo matagal, consta que é lindo nesta altura do ano.
Vou me deixar de injustas difamações, compreensivelmente geradas pela inveja de não ter eu o meu clube campeão, e dou os parabéns ao Benfica.
Pena que o meu Belenenses tenha derrapado nas últimas 27 jornadas, até íamos bem. Mas de olhos postos na nova época encho-me novamente de esperança. Este ano é que é! Por enquanto estamos em 1º…

terça-feira, maio 10, 2005

Cidade Maravilhosa, por Vasco Granadeiro

Apesar dos constantes avisos em relação à beleza desta terra, cheguei ao Rio de Janeiro ainda algo céptico. A minha recente paixão por uma cidade catalã (cujo nome me recuso a mencionar, temendo que o mar de recordações afogue o propósito deste blog) e o descrédito por que tomo a bigamia bloqueavam-me a mente, apesar de ouvir claramente o cântico das sereias por detrás dos primeiros morros.
António, Pedro e Gonçalo gentilmente nos albergaram no seu lar, no Leblon. Diz-se que “uma mão lava a outra”, e se cá em Floripa demos uma esfrega nas patas dos dois primeiros, lá no Rio deram-nos uma lavagem completa, com direito a manicure e creme hidratante. Expresso aqui a nossa gratidão, foram dias inesquecíveis.
No primeiro dia, sexta-feira, demos só uma volta nas proximidades. A zona era realmente bonita, Ipanema tinha aquele dinamismo citadino que falta aqui na ilha, os grandes morros de fronte da Lagoa Rodrigo Freitas conferiam-lhe uma beleza extraordinariamente invulgar.
No Sábado subimos ao Corcovado, mal sabia o que me esperava. Aí deparei-me com a paisagem que me tirou a fala. Erguia-me num cenário magistral, muitos metros acima da cidade, e pela primeira vez a vi tão linda como ela é. Os morros surgiam imponentes, gigantes entre a floresta de prédios, sagrados, apenas as favelas ousavam trepá-los. A lagoa era ainda mais bela vista dali de cima, o único espaço plano e vazio naquela esplêndida luta territorial. O verde da vegetação e o branco das habitações eram as cores dominantes, o anel do Maracanã brilhava ao sol. Mar a perder de vista, pelo oceano ou pela Baía de Guanabara, a ponte e Niterói ao longe. Foi amor à primeira vista.
Domingo decidiu-se aproveitar o sol na Praínha, alegadamente a praia mais bonita da região. Concordámos e dormimos quase o tempo todo.
O plano elaborado no dia anterior levou-nos à primeira visita daquela Segunda-feira: Rocinha, a raínha das favelas. A caminho da praia, Wilson Ricardo, o taxista desse dia, disse-nos que era possível satisfazermos o desejo de visitar a Rocinha. Acrescentou que era o local mais seguro do Rio de Janeiro, excepto quando lá entrava a polícia, a grande ironia da cidade. Nesse solarengo início de tarde encontrámos o taxista que nos levou ao Corcovado, Carlos, que consultou uma funcionária da praça de taxis que lá morava respondendo ela que a favela estava sossegada. Mesmo antes de entrarmos no taxi, Pedro frisou que tinha sido um prazer conhecer-nos. Subimos o morro com um nervoso miudinho, aquele de levar uma ameixa entre os olhos. Mas imediatamente se desvaneceu o medo, aquilo que julgávamos infernal era até convidativo. Na rua principal passavam autocarros, muito movimento e muitas lojas, não havia olhares ameaçadores. Guiados por dois miúdos, subimos a uma varanda, especialmente arranjada para os turistas, daí via-se toda a encosta Sul da favela, a maior parte dela. Uma área gigante, desorganizada e sobrelotada, totalmente caótica. Impressionante.
Ainda nessa tarde fizemos a última excursão, subimos ao Pão de Açucar. Mais uma vista deslumbrante, menos impressionante que a do Corcovado mas não inferior, complementar. Bem em cima da Baía de Guanabara, outra perspectiva da cidade, com uma privilegiada vista sobre Copacabana e sobre o centro da cidade. Aviões pousavam e levantavam do Santos Dumont, contemplávamos o nosso próximo destino.
A caminho do aeroporto inspirei pela última vez aquele calor citadino, que tão saudosistamente iria recordar. Prometi a mim mesmo lá voltar.
Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, Cidade Maravilhosa, coração do meu Brasil”. Agora sim, compreendo a letra.

quinta-feira, maio 05, 2005


O melhor sorriso do Rabaçal (t-shirt verde) na sua despedida.
Posted by Hello

Caro Rabaçal, por Vasco Granadeiro

Foram as minhas únicas palavras na tua despedida, repito-as agora: “é o fim de uma era”. E assim te foste embora, último visitante de um núcleo duro que marcou este “erasmus” para sempre. Subscrevo também as tuas: “não há palavras para descrever o que aqui se passou”.
Curtimos muito, muito mesmo. Estremeço só de reler os anais do Vereador, mais castiçada e éramos presos! Levas esse saco cheio com o melhor do que aqui se passou, páginas e páginas de memoráveis episódios, a aplicação das leis da ociosidade em todo o seu esplendor. As viagens no Fusca, os nomes, as fotos, as risadas, sabes bem do que falo... E de pensar que tudo começou numa viagem de finalistas que nem fui, e onde tu eras quase estranho!
Ontem bem cedo já se falava do que ia custar a tua ida, mas percebes que nunca por desdém desconversei a veia emocional do Caliço. A tua despedida ia ser a mais difícil, sabia-o, decerto que todas as outras visitas concordariam comigo. E a noite de ontem não podia ser só abraços e choro, enquanto recordávamos os melhores momentos, pedia-se uma como as melhores, uma despedida em grande. O que para o recém-chegado Nuno Sobrinho se apresentava como uma agradável surpresa era para nós já um clássico, a Confraria fervia em tua honra. Que balada, bem a mereceste!
O homem que vinha por quinze dias e ficou um mês e meio... A piada desta frase esconde o prazer que mostraste em estar cá, a fazer a nossa vida, tanto na diversão como no trabalho, a mais lisonjeira das atitudes.
Mas tinhas que ir, e foste. Despeja esse saco de recordações por onde passares, enche-o de novas histórias para na volta nos deliciares os ouvidos, adoçares a nossa vontade de seguir os teus passos em Julho! Levantaste a cabeça e, como um homem não chora, entraste naquele autocarro, decidido. Desbrava por nós!
Boa viagem. Só espero que não faças cá a falta que eu acho que vais fazer.

quarta-feira, maio 04, 2005

Pegar Carona, por Vasco Granadeiro

Raro costume em Portugal, este de pedir boleia. Culturalmente existe a desconfiança no indivíduo desconhecido, injectada logo nos primeiros anos de vida – não falar a estranhos, nunca aceitar boleia de estranhos – que bloqueia tão belo confronto social. Nem condutor nem transeunte sequer pondera este nobre parasitismo, simbiose no caso de uma boa companhia. Então quando os intervenientes são de sexos opostos, uma boleia é encarada como situação de alto risco: o homem é na maioria das vezes um violador, um psicopata ou um assassino “a monte”.
Aqui a boleia é um conceito banalíssimo, todo mundo pega carona. Cá em casa, até as meninas que recentemente nos visitaram andaram à boleia. Encontraram um guia apaixonado que só interrompeu a visita turística pela ilha quando a última delas confessou ter namorado. Na única que apanhei, a caminho da universidade, num dia em que o Fusca estava doente, o simpático condutor, columbófilo nas horas vagas (será perigoso?), explicou-me ser a fraca rede de transportes públicos a gerar aquele costume. Perguntei-lhe se teria os dias contados. Orgulhosamente declarou que “só dá carona quem já pegou carona”. Inconclusivo, mas bonito.
Cada um tem a sua táctica, uns com mais sucesso que outros. Conta-se haver tipos a estudar na nossa universidade que todos os dias vão e vêm à boleia. Um mito urbano, na minha opinião. Alguns até exibem uma placa com o destino pretendido, evitando assim o transtorno da paragem por parte de um benevolente errante. Mas todos, sem excepção, mostram um talento natural para a coisa. Pegar uma carona não tem só a ver com sorte, é preciso querer a carona. É todo um ritual centrado num objectivo, uma verdadeira dança da chuva. No macho a posição é erecta e decidida, o polegar aponta a direcção desejada (apenas os leigos apontam o céu), o braço, em “v” com a mão à altura do ombro, não invade a estrada por muito pouco. Admitem-se paragens entre veículos mas à passagem de um há um esbracejar frenético, com uma ligeira basculação lateral do tronco acompanhando o movimento deste. O olhar é penetrante, quase ameaçador, e não se insulta uma recusa, são ossos do ofício. Na fêmea, uma saia acima do joelho é o suficiente.
Como já todos pegámos caronas agora também as damos. Só às vezes, quando há espaço. A tendência é dar às gatinhas gostosas, sujam menos o carro. Porém já algumas recusaram, vá-se lá perceber porquê

segunda-feira, maio 02, 2005

Nostalgias: Visitados por Mãe Caliço, por Vasco Granadeiro

Realmente é um exagero considerar a visita da Dra. Manuela Caliço uma nostalgia, foi há pouco tempo. Mas é este o nome da rubrica que personifica a preguiça, ou seja, não escrever sobre o que se passou ontem é amanhã uma nostalgia.
Depois de uma rápida arrumação, o Vereador, sempre sorridente, recebeu as doutoras Manuela, mãe do João, e Libânia, amiga. Sempre julguei que o Caliço fosse o menino querido da mamã, mas não. Incrível, não lhe trouxe nada, nem sequer um paio.
À noite comunicou-nos o Caliço que estávamos convidados para jantar, alertando-nos logo de seguida que nem de longe nos devíamos sentir obrigados a ir. “Claro, só mais um churrasquinho cá em casa…”.
Muito bem nos falaram da sequência de camarão do “Barba Negra”, um restaurante na Av. das Rendeiras. Acabávamos de entrar no puro restaurante para a turistada e um simpático empregado, respeitosamente mascarado de pirata, dava-nos as boas vindas. “Desejam rum?”, e nem à frente da mãe o beberolas do Caliço recusou. Na proa da mesa sentaram-se as recém-chegadas à ilha, a meio eu e o Caliço, a tentação de nunca usar os talheres afastou os mais ratos para a popa: Adriano, Xico e Rabaçal. Uma brisa gelada, tão orgulhosamente anunciada à porta, trocava as duas doutoras. A conversa começou amena, de tão embaraçados que estávamos bebíamos suquinhos. “Não bebem Skol?”. Aos olhos das viajantes éramos uns meninos, tenrinhos.
Chegados os primeiros camarões acabou-se a timidez, valores mais altos se levantavam… E daí ao total à-vontade foi um instante. Arregaçar a manga e tirar o relógio são acções que falam por si. Ouve até quem usasse o pronome “merda” mais do que uma vez, a descontracção com que o fez foi o melhor disfarce.
A sequência de camarão é um prato difícil, socialmente falando. Resume-se a comer muito com as mãos. Os talheres estão lá, só não há paciência. Em frente a adultos respeitáveis, com as mãos a pingar alho e óleo, a tresandar a camarão, com os copos baços de impressões digitais, competindo no prato em altura, ficar bem visto torna-se uma tarefa complicada. No entanto, a experiência destapa a solução: só não se pode ser o primeiro alarve. No começo há que resistir à tentação e começar com os talheres. Olhar em volta. Se todos estiverem igualmente educados, desafiar a pessoa do lado a comer com as mãos, argumentando que assim faria mais sentido. Na altura em que cede (e alguém cede sempre), destruir a simultaneidade do acto à última da hora com um sorvo na bebida. Dar um sorriso condescendente, bem visível, e pegar no primeiro camarão. Trigo limpo.
A sequência era realmente boa, mas entre pratos dava para dormir. E o empregado ouviu exactamente isto.
Na despedida fomos novamente convidados para jantar. Bem que tentámos ir ao “Cunha” recordar um bacalhau ou ao “Chico”, rival vizinho dos piratas, mas a segunda-feira era de folga. O mesmo ladrão do mar recebia-nos a sorrir, a mesa foi a mesma, a disposição também, déja vu. Até o ar condicionado ligaram e novamente as doutoras trocaram de lugar, nem de propósito. Enfeitiçados, Caliço, Adriano e Xico pediram a sequência. Resolvidos a quebrar o enguiço, eu e Rabaçal optámos pela moqueca de garopa. A descrição do pirata alegre levou as doutoras até à caldeirada.
Mas se da outra vez demorou horas, desta vez a sequência foi um tiro. Creio ter ouvido, a tempos, o sinal sonoro do micro-ondas, cuspindo o prato seguinte. “Está melhor que da outra vez”. Tolos. Fabulosa a moqueca, não tão boa a caldeirada.
E concluída a refeição despediram-se as doutoras. Só aí deixámos de ser irmãos do Caliço.