domingo, abril 24, 2005

O Meu Aniversário, por Vasco Granadeiro

Que me lembre, pela primeira vez festejei o meu aniversário no estrangeiro. Apesar da emoção destes dias me deixar estupidamente saudosista, reconheço que estavam reunidas muito boas condições para um inesquecível 23 de Abril. O Vereador nunca tinha acolhido tanta gente. Dez pessoas conviviam cá em casa: três efectivos, seis visitas e uma lapa chamada Rabaçal. Mais quatro viajantes albergavam-se na pousada vizinha, entre eles a minha primeira visita extra-familiar, Xico Frazão. O Sol não desiludia, o fim-de-semana prolongado prometia balada de qualidade. E assim foi, inesquecível…
Sexta-feira 22 nasceu radiante, ponte devido a um feriado cujas razões desconheço, cumpriu-se o desejo de recuperar na praia as energias dispendidas na noite anterior e cedo se ouviu o rugido do Fusca a caminho da Mole, com pranchas a cavalo. De perto éramos seguidos pelos Frazões, sedentos de mar e areia, inocentes. Repetiu-se a brincadeira infligida sobre Pita e Zé Maria, os patos chegados na véspera, na qual a “praia” da Lagoa da Conceição se apresentava como a esplêndida Praia Mole e as suas águas paradas o Oceano Atlântico, mas sem o sucesso dos pioneiros. Não era tarde quando regressámos a casa. No plano para o serão constavam banhos, cerveja, jantar e uma dúvida quanto ao destino da noite.
Mas nas mentes de todos ainda vivia o aniversário de Rabaçal, tímido, a princípio um fracasso declarado, número escandaloso de baldas, quiçá vingança da sua ausência na sua meia-noite, depois compensado por uma enchente tardia e inesperadas prendas. Descansava-me a maior probabilidade de superar o jantar dele, já que o fundo não andou longe, mas preocupava-me a menor, a de bater lá. Era com ele que eu tinha que ter cuidado, atento ao boicote, à facada nas costas. Mas a sua postura, fuligem em todos os poros, assando a picanha, ilustrava o conformado, recuperado do mau bocado.
Como o meu dia de anos era só o seguinte, zero horas em diante, achou-se por bem fazer parte do requintado bufete uma massa misturada com carne previamente assada, a viver no frigorífico fazia dois dias. “Para poupar”, diziam eles. Ainda outra massa acompanharia a única picanha comprada, 1,5 kg para quinze pessoas em conformidade com a máxima da noite, esta com o queijo que enche a sandes mista. Apenas de serviço devido à importância da ocasião, Maria e Catarina, que com Madalena formavam o trio feminino da casa, confeccionaram as massas superiormente. Numa, em vez de disfarçar a carne pútrida, esta surgia como o ingrediente mais apetecível; sobre a outra todos os pedaços de queijo, longe de derretidos, coroavam-na de vergonha. Estavam as massas de tal maneira desfiguradas que os famintos mais precoces atacavam o pão depois de as olharem nos olhos. Que honra, que soberbo manjar!
A animação era uma loucura. Uns adormeciam-se no sofá, outras morsas bocejavam, das colunas saía um silêncio ensurdecedor. Frazão, António, Pedro e Miguel ocupavam a primeira fila com vista para a televisão. Nem o bigode que deixei por fazer seduzia a plateia. Neste cenário, Caliço soltava sonoras gargalhadas enquanto apreciávamos o sucesso do jantar. “Não tenho amigos cá”, explicava.
Com a aparição da picanha tudo se desvaneceu e, valha a verdade, a massa acompanhou-a sem grande alarido. Tinha sido um pequeno percalço e a esperança de uma boa balada mantinha-se. Além disso, este não era o meu jantar, o oficial era no dia seguinte.
Com a meia-noite as primeiras congratulações, ênfase nula, meteram dó os laços abraços, os curtos beijos, os cumprimentos modestos. Por esta altura já se vislumbrava o fundo.
Chegava a outra metade da comunidade portuguesa afecta ao Vereador. Quis o destino, esse mariola cheio de coincidências, que outra pessoa nascida exactamente no meu dia, Cordeiro de seu nome, partilhasse comigo este pedaço de terra longínqua. Vinham também eles de um jantar não-oficial, aparentemente gostava mais dele a sua metade do que de mim a minha: sorriam. As chapadas de afecto, o barulho gerado, um novo ânimo despertado encheu-me de novo de esperança. “Nem tudo está perdido”, pensava.
Nunca levei a peito tudo o que se estava a passar, muitas vezes me ri do caricato aniversário, inesquecível por estar mesmo a roçar o fundo. Tudo corria mal, não havia declaradamente culpados, pode ser que tenha sido do cansaço. Talvez um café animasse as hostes.
O meu aniversário já estava de joelhos, o que aconteceu de seguida decepou-o sem misericórdia. Como se não bastasse de tragédias por uma noite, faltou a luz. Agora sim, um festão. Ria-me e encolhia os ombros, impotente.
De dentro de uma caixa de pizza, que dentro do frigorífico nunca enganou ninguém, sai um belo bolinho para mim, com potencial, quase capaz de fazer esquecer todo o fiasco até então. “Parabéns a você”, soprei o 23, palmas, bolo. “Gostava de agradecer a presença de todos…”, pregava eu aos peixes da lagoa. Realmente não soou o costumeiro “Discurso!”, presunção da minha parte. Mais uma risada do Caliço, saído do banho de onde entoou a canção.
É óptimo ter um portão eléctrico, um botão e ele abre para confortavelmente se estacionar o carro no pátio. Não é tão bom quando falta a electricidade, não dá para entrar e pior: não dá para sair (a máquina de café também é eléctrica). Claro está que todos estacionam no interior, e como a energia teimava em não aparecer, adeus balada. E foi assim que esta noite festiva se transformou num verdadeiro campo de concentração. Só o meu irmão conseguiu impedir que hordas de aveirenses, cegados pela liberdade, rebentassem com o portão.
Finalmente chegou a luz e com ela o fim de tão fatídica noite. Eu, já conformado com o fracasso, e os poucos resistentes, sentados à mesa, saboreávamos episódios do serão ao ritmo das últimas cervejas. À excepção do da minha mãe, contabilizava zero telefonemas. Inesquecível noite, do pior possível, teve a sua piada. Agora sim, tinha a certeza que o dia seguinte seria melhor e com este pensamento me deitei.
O dia 23 foi claramente melhor. O Sol brilhava ainda mais, chegado a casa vindo da Mole recebi os primeiros telefonemas. Apesar de já terem sido a 24 na origem, não me importei, fizeram-me muito feliz. O desejado restaurante, para o jantar conjunto, fechado, também não me aborreceu. Estava imune a este género de percalços e rapidamente se arranjou uma solução. Termos sido roubados nas vinte e oito sequências de camarão também não me abateu, simplesmente beneficiámos do facto de não ser obrigatório pagar os 10% de gorjeta. A Confraria das Artes também já viu melhores noites mas era tarde demais para me chatear, estava lançado.
Esgotado da noite desfaleci na cama. Nisto, alguém me apunhala nas costas! Inesperado, visto que dormia de barriga para cima. Um cluedo de fácil resolução.

2 Comments:

At 27 abril, 2005 18:42, Anonymous Anónimo said...

Vasco, mais vale tarde que nunca e o desconhecimento nunca foi razão para ofensas...por isso, PARABÉNS atrasados, e um grande beijinho, da Rita (a amiga do Caliço).

 
At 02 maio, 2005 19:36, Anonymous Anónimo said...

Parabens Caralho !

Sei que devia ter posto isto no dia 23...mas nao pus.

 

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