quinta-feira, abril 07, 2005

Nostalgias: A Raspadinha, por Vasco Granadeiro

Raiava o dia na Praia Mole. Fim de noite, Latitude clássico, queimavam-se os últimos cartuchos no bar da praia, ainda fechado. Caliço dormia, Rabaçal brincava alegremente com um cachorrinho, ligeiramente pulguento. A conversa banal hipnotizava os restantes. Eu admirava a poesia das ondas, esplendidamente iluminadas pelo astro-rei, abraçando a areia com o mesmo saudosismo que eu sinto por Portugal. Isto e tentava que o pulguento saltasse para cima do Caliço.
À frente dos mandatários do Vereador erguia-se uma tarefa tenebrosa, associada a um ambicioso dia de praia matutino. No dia anterior, eu, Coutinho e Rabaçal empurrámos o Fusca para a porta da oficina, devido a se ter rompido o cabo da embraiagem. Sem dormir, tínhamos que ir dar a chave do carro ao mecânico, cuja oficina abria apenas às 9h00, e seguíamos de volta para a Praia Mole, equipados de prancha, prontos para um dia inesquecível. Dormir… Depois se veria onde.
Estavam de visita à ilha duas garotas, Raquel e Diana, primas, amorosas. A nós se tinham junto porque o Xico conhecia a Raquel de Lisboa. Estavam hospedadas no vistoso Praia Mole Park Hotel, pesadamente citicado por estas, diga-se de passagem. Tinham alugado um Chevrolet Celta, alvo imaculado, um belo frigorífico. Estavamos sem o nosso Fusca, elas iam-nos levar a casa, num belo gesto de simpatia. A caminho do hotel, onde estava o Celta, tive uma ideia luminosa: pedir-lhes o carro emprestado! Era perfeito! Não nos tinham que ir levar, tínhamos um carro para a nossa tarefa e para voltar para a praia com a prancha. Os outros resistentes, Câmara e Rabaçal, aprovavam a ideia de sorriso estampado na cara.
E, em mais um gesto largamente apreciado, as primas cediam o carro, apesar de apreensivas. Não havia problema, estavam a emprestar o carro a indivíduos de confiança, só que elas não o sabiam. E assim foi. O condutor, habituado à condução rude do Fusca, responsável, eu, Rabaçal a co-piloto, Câmara a enfeitar o banco traseiro. Era um percurso díficil, estrada estreita, árvores surpreendentes, uma combinação de Estrada dos Tijolos Amarelos com Floresta de Sherwood, manobra de marcha-atrás. Já com o motor a trabalhar, as meninas despediam-se.
- Há aí alguma árvore? – perguntei enquanto engrenava a marcha-atrás, tentando avistar alguma.
- Nenhuma. – concordavam os dois médiums, sem sequer virarem a cabeça.
A caminho, então. Nisto, um ruído. Quando nos voltámos, o carro beijava descaradamente uma árvore que se prostituía no meio da estrada. Uma vergonha, e elas nem a dez metros. O riso atropelava-se com o nervoso miudinho. Felizmente elas não toparam e arrancámos. Um assobio de desconexão soou. A árvore lá ficou, de novo ao ataque, esperando o próximo infeliz.
Chegados a casa fomos ver o prejuízo: marcas da árvore acima da roda. Auxiliado de Limpol, detergente da louça com mostras de alta qualidade, tirei a nódoa que tanto nos apoquentava. E, sorte a nossa, não passava disso mesmo, por debaixo estava liso, não amolgado. Enquanto isso, Câmara, iluminado, despejava álcool na ferida, só interrompido pela minha oposição feroz.
E a partir daí tudo correu sem mais sobressaltos. Câmara desistiu e desfaleceu na cama. Eu e Rabaçal cumpríamos o plano e saíamos de casa direitos ao mecânico, de prancha às costas. Devolvido o carro, achámos por bem dormir ali mesmo no hotel, de toalha estendida no relvado, à sombra, na margem Norte da piscina.
Elas nunca souberam do que se passou, mesmo depois de inspeccionarem o Celta. Agora pode ser que descubram…
É claro que lamentamos o sucedido, principalmente eu que conduzia. Mas note-se a nossa preocupação, o nosso esforço para não as desiludir, bem sucedido por sinal. E ainda mais com esta humilde confissão! Perdoados?

1 Comments:

At 16 abril, 2005 16:55, Anonymous Anónimo said...

LOOOOOOOLLLLLL!! realmente o carro passou a fazer uns barulhos eskesitos cada vez k passava nas lombas... mas bateram na árvore do hotel??nem reparámos! mas é na boa, a unidas nao nos disse nada, o k eu acho ser mto bom sinal! continuem a divertir-se. beijinhos grandes

 

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